Gestalt-terapia

Denise Evangelista Vieira – Psicoterapeuta CRP 12/05019 – vieira.denise08@gmail.com

No início da construção dessa nova perspectiva de psicoterapia, Frederick Perls, a chamou de Concentration Therapy. Formado em Psicanálise, Perls empenhou-se em fazer uma revisão crítica de sua Escola de origem na tentativa de compreender o funcionamento psíquico na sua totalidade. Considerando novos referenciais teóricos e filosóficos, foi além da revisão da Psicanálise criando um novo modelo de compreensão. A teoria sobre personalidade holística de Smuts, as noções sobre o funcionamento organísmico de Goldstein, e uma perspectiva fenomenológica, do ser-no- mundo, apontaram o caminho que transcende a ideia de aparelho psíquico, onde entre outras coisas, a noção de ego se afasta do ponto de vista tópico, e do ego como órgão de censura para uma noção de um ego insubstancial e sua descrição se aproxima da perspectiva de um ego dinâmico e transcendente.

Outro conceito muito interessante proposto por Perls nessa nascente da Gestalt Terapia é o de metabolismo mental, que se relaciona com a concepção sobre a função da agressão, os mecanismos de introjeção e de assimilação. Assim a ênfase sai do intrapsíquico estrutural e migra para um modo de compreensão muito mais dinâmico e inseparável da sua relação com o meio e com as relações estabelecidas nesse meio.

A proposta da Terapia de Concentração considerava a evitação a característica principal das neuroses do ego. Nessa nova terapia Perls procurou desenvolver uma ação de restauração de contato, atento às evitações geradoras de conflito. A Terapia de Concentração deveria recuperar as partes da personalidade desvitalizadas pela evitação e que se constituíram em função dos conflitos entre as necessidades sociais e biológicas, promovendo sua integração.

Banhado numa nova perspectiva, o pensamento gestáltico foi se formando, tendo como base as teorias já citadas, bem como o pensamento diferencial de Friedlaender, permitindo uma descrição das vivências de campo sem que isso implicasse em apontar um agente exterior como causa primeira, uma teleologia (causa final diferente dos próprios meios) ou uma forma rígida ou linear (causa formal). De acordo com Helou, “o pensamento diferencial deu a Perls a conceituação teórica necessária para pensar temas que serão caros a ele durante toda sua vida: a dualidade dos processos vitais e o estudo do resgate da expressão vital, do espontâneo e do criativo na personalidade, por meio da recuperação das dualidades desses sistemas”. (Helou, p.115, 2015).

O processo psicoterapêutico favorece essa possibilidade de ampliação de perspectiva. Quando isso acontece podemos ver, entre outros aspectos, os dois lados da moeda. Sem a necessidade de excluir nada, transitamos por nossas próprias polaridades, damos vazão aos sentimentos que nos preenchem e, às vezes nos sufocam, e isso possibilita a formação de novas figuras. Imaginemos um copo cheio! Não é possível colocar mais nada nele sem que ele transborde, certo? O processo que permite o contato com sentimentos e emoções e lhe dá vazão, permite que nos “atualizemos”, nos apropriemos daquilo que é nosso e o que faz sentido para nós. Como numa nova possibilidade de “mastigação”, vamos fazendo uma nova assimilação, rejeitando o que não nos nutre e assimilando aquilo que é necessário.

Reich foi outra referência fundamental no desenvolvimento da Gestalt Terapia. Antes mesmo do desenvolvimento das teorias reichianas, na hipótese freudiana, o ego é considerado sobretudo como um ego corporal. Ele é derivado, fundamentalmente, de sensações corporais, basicamente daquelas advindas da superfície do corpo. (Helou, p.94, 2015). Ou seja, se ao nascer temos uma estrutura que necessita se desenvolver, as sensações que o meio nos proporciona, a forma como as “recebemos” por meio dos sentidos, como as processamos em consonância ou não com nossas necessidades vitais contribuirão para a formação de padrões de nossa percepção. Assim também, padrões que darão forma ao modo como vamos nos relacionar com o meio, e como vamos lidar com nossa própria subjetividade. Isso implicou no entendimento de que as relações exercem papel fundamental na construção de padrões de funcionamento e que são a partir delas que se estabelecem as interrupções de contato.

São cinco os modos básicos de contato além da fala e do movimento: olhar, escutar, tocar, cheirar e degustar (saborear, sentir o gosto das coisas). Todas essas cinco funções de contato estão relacionadas aos cinco sentidos. E para todas essas funções, não é a complexidade da habilidade fisiológica que permitirá a abordagem para a Gestalt Terapia. Quero dizer, não é o fato de normalmente as pessoas serem capazes de entrar em contato com o meio através dos cinco sentidos que nos fará compreender como elas se relacionam com o mundo. Muito embora as capacidades natas e seus limites, também atuem como estrutura no desenvolvimento dessas funções. Mas o que nos norteará, é o modo como elas “exploram” essas funções; ou seja, não basta que elas vejam, mas como elas vêem é o que será de interesse para a Gestalt Terapia. Assim, pessoas diferentes terão capacidade de valorizar as experiências de contato de diversas formas e matizes. Terão, por exemplo, limites diferentes que imprimirão tanto o modo como se relacionam com os outros e com o meio, quanto valores diferentes que farão com que tenham uma perspectiva singular do mundo.

Em 1951, já residindo nos Estados Unidos, em pareceria com Paul Goodman e Ralph Hefferline, Perls publica Gestalt-Terapia, pela Julian Press. Esse livro é considerado a obra inaugural dessa nova Escola em psicoterapia. Do diálogo com outras disciplinas, como a Psicologia da Gestalt de Wertheimer e Köhler, e a teoria de Campo de Kurt Lewin, desdobra-se a nova proposta psicoterápica.

A Gestalt Terapia compreende então o homem no meio, o que implica considerar as ações recíprocas e simultâneas entre a pessoa e o meio, o que desembocará ao final na capacidade de cada um em reconhecer sua responsabilidade no campo. Não temos uma tradução exata para essa palavra alemã. Mas ela se refere a todo, forma, fluxo de figura e fundo. Pessoalmente gosto de pensar na palavra imagem. É que além de me remeter a outra palavra, movimento, representa o modo de compreensão que permite ver o funcionamento e as relações entre forma (ser) e suas intrincadas relações históricas no mundo. Perceber o fundo que sustenta a figura, compreender as relações entre passado e presente, entender que a forma revela as relações com o todo.

Assim nos definimos a cada instante no processo incessante de contato entre aquilo que manifestamos na relação entre organismo/meio. A fronteira se dá nesse processo. Não é algo que está em mim, dado que não existimos sem o meio. Ao mesmo tempo em que estabelecemos padrões na forma como as fronteiras se manifestam em função do passado vivido, também dependemos do que se apresenta no agora, e dessa composição singular, surgirão diferentes formas de contato.

O psíquico é visto como função e se manifesta em todo organismo, no corpo, em relação. Todo esse processo ocorre com e no corpo, através da sua sensibilidade (os cinco sentidos) e da sua percepção.

Com um olhar abrangente e através de uma relação dialógica, a Gestalt Terapia intenta resgatar essas funções, liberando as emoções e sentimentos retidos em pontos do desenvolvimento existencial. O que possibilita a pessoa uma integração dos seus aspectos não integrados, ou não acessados e das suas “dualidades”.

É função da psicoterapia gestáltica provocar a potencialização das forças individuais, na medida em que, com o psicoterapeuta, a pessoa vai se tornando capaz de desenvolver um auto-suporte para entrar em contato com sensações e emoções, bem como de definir suas próprias necessidades presentes e aptidões para buscar a satisfação delas. Desenvolver, nesse processo, uma maior consciência sobre si mesmo, e fundamentalmente fluidez nos diversos aspectos de sua vida. A Gestalt Terapia proporciona à pessoa a possibilidade de lançar luz sobre partes alienadas de si e de restabelecer funções de contato interrompidas. Tais funções são responsáveis, por exemplo, pela capacidade de estar no mundo de forma mais ou menos consciente, mais ou menos flexível, mais ou menos apta para usufruir do presente. Há, por exemplo, comportamentos que repetimos nas relações que estabelecemos que além de se parecerem muito com relações não saudáveis no decorrer da nossa trajetória, denotam um modo como “aprendemos” a estabelecer contato. Muitas vezes são comportamentos que não nos favorecem e que a despeito de impedir as mudanças almejadas “insistimos” em vivenciá-las. Há aí um material riquíssimo de investigação, uma inegável fonte de autoconhecimento. É o que chamamos de compulsão à repetição, e que entre outras coisas podem revelar aspectos importantes do nosso funcionamento psíquico e mais sobre aquilo que chamamos de fronteiras-de- contato, o que experienciamos entre nós e o meio.

Com a Gestalt Terapia podemos nos libertar do passado que nos aprisiona, liberando emoções retidas por vivências opressivas, bem como nos libertar das fantasias ansiogênicas apontadas para o futuro. É que no processo de “aprendizagem” vamos introjetando importantes crenças culturais ao longo do desenvolvimento, que imprimem uma gama variada de medos e valores, interrompendo nossa capacidade de contato e awareness. A awareness pressupõe a capacidade de aceitar; apenas aceitando (admitindo, colocando foco e deixando fluir) nos tornamos disponíveis para o contato com nossas sensações, emoções, necessidades e ampliamos a capacidade de fazer escolhas. Com o processo terapêutico, vamos nos tornando mais capazes de usufruir e viver o presente, “com tudo aquilo que é”. O processo terapêutico, nos auxilia a compreender e incorporar estratégias para o nosso bem estar e construir aquilo que para cada um, se chama felicidade.

(bibliografia consultada Helou, Fádua. Frederick Perls, vida e obra. Em busca da

Gestalt-terapia. São Paulo: Summus Editorial, 2015)

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